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estudos da escrita

Papel, Penas e Tinta: entrevista com o autor


O autor Sérgio Antônio e Rita Ribeiro em noite de lançamento do livro que aconteceu na Livraria Quixote em Belo Horizonte.

Entrevista com  Sérgio Antônio Silva, autor de Papel, penas e tinta: a memória da escrita em Graciliano Ramos. Por Sérgio Luciano da Silva.

Mais fotos do lançamento na noite do dia 28/08.

Papel, penas e tinta deriva de que projeto?

De minha tese de doutorado – uma teoria sobre o escrever e uma análise crítica da obra de Graciliano Ramos –, que tive a honra de realizar no Programa de Pós-graduação em Letras: Estudos Literários da UFMG, sob a orientação, que muito mais ainda me honra, de duas professoras: Ruth Silviano Brandão (que também me presenteou, e aos possíveis futuros leitores desse meu livro, com um texto de apresentação) e Lucia Castello Branco.

Papel, penas e tinta são objetos ligados à escrita; porém, denotam outra época, outros modos de lidar com essa prática. Por que a enumeração? O que esses artefatos têm a ver com a obra de Graciliano Ramos?

Sim, hoje, quase não se usam penas, tinteiros. São artefatos de uma época anterior à das telas, dos tablets, e mesmo anterior à caneta esferográfica. O papel, esse sim, parece não vamos nos desvencilhar dele com facilidade, ainda guardamos o hábito de imprimir muita coisa, até mesmo coisas inúteis. Mas, voltando à frase que dá título ao livro, trata-se, na verdade, de um fragmento retirado de uma carta de Graciliano Ramos e que serviu como ponto de partida para a proposta de se pensar a relação do escritor (de Graciliano Ramos ou de outro qualquer, não importa) com essa parte, digamos, física, material da escrita, muitas vezes deixada de lado pela crítica, pelos professores de literatura. A carta foi escrita em 1913, Graciliano morava em Palmeira dos Índios e um seu amigo na cidade do Rio de Janeiro. O trecho completo, publicado num volume intitulado Cartas, atualmente em catálogo da editora Record, diz o seguinte: “Não gozarás aqui de grande conforto – mas sempre encontrarás um quarto com duas cadeiras e uma mesa, um bocado de livros, uma bilha d’água, papel, penas e tinta, enfim o necessário a um indivíduo que tem fumaças de literatura.” Eis aí uma espécie de poética de Graciliano Ramos: a pobreza, a escassez de recursos, a precisão, a economia da palavra.

Mas o que seriam essas “fumaças de literatura”?

O termo “fumaças” refere-se à presunção daqueles jovens nordestinos, ou seja, descentrados, desterritorializados, que, naquele momento, tornavam público o desejo de se tornarem escritores, e daí se colocavam como tal, num ambiente bastante avesso a essa profissão. Tenho a impressão que expressões como essa caíram em desuso, embora se conservem nos dicionários, mas não tenho certeza. De qualquer modo, vindo de Graciliano Ramos, podemos pensar esse uso também como uma ironia, uma maneira cinza de rir (e fazer rir) de sua própria condição.

Graciliano Ramos é considerado um dos clássicos da literatura que tem por assunto a memória, dois de seus mais importantes livros situam-se nesse campo: Infância e Memórias do cárcere. Vimos que esse tema aparece também em seu livro, já no subtítulo. Como se deu essa abordagem?

Tratei de pensar a memória daescrita, ou seja, a escrita como detentora de uma memória que atravessa toda a obra do escritor. Essa memória, eu a reconheci no plano mais óbvio, da narrativa – por exemplo: os três narradores dos romances Caetés, S. Bernardo e Angústia são escritores e estão às voltas, cada qual a sua maneira, com a produção literária, e isso fica evidente nas tramas dos romances –, mas também em um plano mais obtuso, que diz respeito à relação de todos nós, mas em especial o escritor, com aquilo que em nós resta, mais do que escrito, inscrito, algum traço, alguma ranhura que se inscreve em nosso psiquismo, a qual recorremos, enviesadamente, claro, para construirmos nossas histórias, estejam elas impressas em livro ou não. É o ponto crucial, o momento em que uma escrita, que já estava lá, desde sempre, se atualiza num livro, numa carta, num pedaço de papel qualquer, ou mesmo no chão, no ar, no sopro, na voz. No mais, há toda uma questão social aí, a relação da humanidade com a escrita (com essa escrita a que nos referimos, que no caso de certos povos até independe de uma organização lógica, formal, tal como é a daquela de que nos valemos, a alfabética latina, por exemplo) é algo muito antigo, daí a memória da escrita pode ser aquela dos objetos, dos instrumentos, dos meios, e também dos gestos que a ligam ao corpo – ao centro do corpo, aos humores – do escritor.

Qual a importância de se reler Graciliano Ramos?

O autor – o seu nome de autor, por si, já responde a essa questão. É um clássico da literatura brasileira ou, simplesmente, da literatura. A tempo: sempre apreciamos datas que motivam lembranças e homenagens. Aí vão duas delas: em 2012 completam-se 120 anos de nascimento de Graciliano Ramos. E 2013 marca os 80 anos da publicação de seu primeiro livro, Caetés. Essas datas sugerem uma reflexão sobre a velhice do velho Graça. Uma das premissas dos clássicos, dos autores e livros clássicos, como sabemos, é que eles não envelhecem. Ainda assim me vem a vontade de pensar o que o tempo faz com a literatura. Afinal, nesse mundo, até o Padre Eterno sofreu de velhice, nas mãos de Guerra Junqueiro. É claro que se trata de uma metáfora da velhice.

Qual a importância de se publicar um livro sobre Graciliano Ramos?

Para mim, é de novo entrar na roda do livro. No mais, sinto que publicar é um misto de coragem e despudor. Papel aceita tudo mesmo, até fumaças.

Sérgio Antônio Silva

Doutor em Letras: Estudos Literários pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG); professor da Escola de Design da Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG), atuando na Graduação em Design Gráfico e no Mestrado em Design, com disciplinas, orientações e pesquisas ligadas à semiótica e às teorias da escrita.    sergio.antonio74@hotmail.com

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